Voltar

Sem ilusões nem atalhos

Folha de São Paulo

21.12.2016

Em entrevista recente, uma respeitada jornalista me questionou sobre o meu apoio ao governo Temer: “Você é o contrário do anarquista espanhol, aquele que diz ‘Hay gobierno? Soy contra’?”. Minha resposta foi muito simples -disse a ela que apoiava aqueles que faziam bem ao Brasil.

Sempre procurei ser coerente. Apoiei governos anteriores enquanto isso acontecia, da mesma forma que me afastei quando começaram a levar o país a dificuldades e os brasileiros a sofrimento.

Com a mudança de governo, o país voltou a ter a esperança de um futuro melhor. Mas com a esperança não deve retornar a ilusão de que os problemas serão resolvidos rapidamente, como se existisse mágica capaz de gerar de forma instantânea o crescimento e os empregos perdidos.

Nossos problemas são estruturais e muito sérios. As soluções requerem tempo e também inteligência e capacidade de comunicação. Liderar o país neste momento é uma tarefa árdua e por vezes impopular, mas intransferível e inadiável. A população sofre e tem pressa. E a ela os dirigentes devem, sempre, prestar contas.

Vejamos, de forma objetiva, o que o governo já fez em poucos meses.

1) Encaminhou e aprovou emenda constitucional que estabeleceu teto aos gastos públicos por até 20 anos. Sem esse limite, seria impossível começar um ajuste crível e sustentável das contas públicas.

2) Encaminhou uma reforma da Previdência, defendida por todos os governos recentes, que busca corrigir distorções grosseiras e injustas no sistema, evitando problemas muito mais sérios no futuro próximo.

3) Retirou da Petrobras a obrigação de explorar o petróleo em todas as áreas do pré-sal, o que ajudará na recuperação já em curso de nossa maior estatal e trará investimentos vitais de empresas privadas ao setor.

4) Aprovou a nova lei de governança de estatais, agências reguladoras e fundos de pensão, que exige qualificações técnicas e experiência profissional de seus dirigentes, acaba com indicações eminentemente políticas e estabelece regras de governança similares às de empresas de capital aberto.

5) Aprovou na Câmara a reforma do ensino médio, vital para melhorar a educação, que agora tramita no Senado.

6) Deu nova força ao combate à inflação -e já colhe bons resultados.

7) Destravou o setor elétrico, abrindo caminho para investimentos em infraestrutura.

Há ainda outras ações a celebrar, o que mostra a capacidade do governo atual de identificar dificuldades e elaborar respostas.

Por isso, acho que os brasileiros têm que olhar com atenção para o que está sendo feito pelo país. Não dá para mudar a situação econômica de forma imediatista. É preciso procurar construir o Brasil do futuro. Se isso não for feito, todos os que sofrem hoje sofrerão ainda mais à frente.

Será que alguém poderia sugerir outras soluções para a economia que não fossem ilusionismos, voos de galinha ou aventuras que tornariam a situação ainda pior? Com tudo o que conheço e já vivi, não acredito. E será que outro governo faria melhor nas atuais circunstâncias?

Este é o momento de pensar com mais serenidade e menos emoção. É o momento de lutar menos por nós e mais pelo Brasil.

Já enfrentamos crises e fracassos demais para aprender que a única “mágica” que funciona é buscar fazer a coisa certa.

O duro caminho sendo trilhado é o único que pode nos levar de volta ao crescimento sustentável no ano que começa.

Este 2016 foi muito difícil para todos nós, mas está acabando. Peço a Deus que continue iluminando o nosso caminho. E desejo a todos um Natal feliz e um Ano Novo com muita saúde e muitas oportunidades.

* ABILIO DINIZ é presidente do Conselho da Peninsula Participações, presidente do Conselho de Administração da BRF e membro do Conselho de Administração do Grupo Carrefour