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Salário de admissão cresce pelo 4º mês seguido

Valor Econômico

20.03.2017

Além do primeiro mês de criação de vagas formais em quase dois anos, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho mostraram que os salários de admissão no mercado formal subiram nos últimos quatro meses, sendo que a alta em fevereiro foi de 3%, na comparação com o mesmo mês do ano passado, já descontada a inflação do período.

No trimestre encerrado no mês passado, o aumento foi de 2,9%. A renda dos admitidos em empregos com carteira assinada não aumentava quatro meses seguidos desde agosto de 2014.

Para economistas, além da ajuda importante da desaceleração da inflação no último semestre, o aumento real dos salários de admissão pode ser um primeiro sinal de esgotamento do processo de troca de mão de obra mais cara por mais barata, que costuma caracterizar ajustes no mercado de trabalho.

O fim desse processo, dizem, pode ser um sinal de que a taxa de desemprego vai se estabilizar no segundo semestre deste ano, ainda que em nível bastante elevado. A desocupação, avaliam, será o último indicador a melhorar, até porque mais pessoas devem voltar a procurar emprego, com a expectativa de recuperação da economia.

Para Fabio Romão, economista da LCA Consultores, o aumento dos salários de admissão nos últimos quatro meses está muito relacionada com a queda da inflação, que torna mais fácil a obtenção de reajustes reais nas negociações salariais.

“Para obter ganho real com uma taxa de inflação de 10%, o reajuste nominal precisa ser muito elevado. Com inflação a 5%, é mais fácil. É um cenário em que a gente começa a perceber certa recuperação do mercado de trabalho”, diz ele.

O boletim Salariômetro, divulgado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), mostrou que em janeiro os reajustes salariais negociados em convenções e acordos coletivos no país tiveram o primeiro ganho real em 20 meses, de 0,4%. Em termos nominais, o aumento mediano foi de 7%, diante de uma inflação de 6,6% acumulada nos 12 meses encerrados em dezembro.

A análise dos acordos protocolados no Ministério do Trabalho mostrou também que a proporção de correções abaixo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) atingiu o menor nível em pelo menos um ano, de 25,9% do total.

Para Romão, a evolução um pouco mais positiva dos salários de admissão nos empregos com carteira assinada também parece estar relacionada com os sinais de estabilização da atividade industrial. Em janeiro e fevereiro, o setor manufatureiro voltou a contratar, observa ele, e esse é um segmento que costuma ter salários mais altos, o que puxa a média para cima.

No primeiro bimestre, a indústria de transformação abriu 21,5 mil postos de trabalho, contra um fechamento líquido de 42,7 mil vagas em igual período de 2016. Para o ano, Romão projeta que o setor será responsável pela criação de 136,5 mil empregos com carteira assinada, um número positivo, mas distante de recuperar os mais 1 milhão de postos de trabalho fechados na indústria nos últimos três anos.

Para Rodolfo Margato, economista do Santander, parte do aumento dos salários dos admitidos também pode ser explicada por um crescimento forte, em torno de 20%, dos salários nominais de admissão na administração pública no período.  “Não fosse isso, a alta ficaria mais próxima de zero”, diz ele, para quem esse aumento está ligado ao reajuste dado a algumas categorias no fim do ano passado.

Ainda assim, diz o economista do Santander, isso não compromete a avaliação de que a renda deve continuar a melhorar nos próximos meses, por causa da taxa de inflação menor e alguma recuperação das contratações no setor de serviços.

Olhando para o mercado de trabalho de forma mais abrangente, na Pnad Contínua, que abarca também empregos informais, a estabilização da renda parece mais provável por um “efeito composição”, diz ele. O emprego sem carteira assinada, de salários menores, aumentou muito durante a crise, o que puxou o rendimento médio para baixo. “Esse processo parece dar sinais de esgotamento”, diz.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, considera ainda mais importante observar a relação entre os salários dos contratados e dos demitidos no mercado de trabalho formal, já que este costuma ser um bom indicador antecedente do comportamento da taxa de desemprego seis meses à frente.

Considerando a média móvel trimestral, a relação, que caiu muito até outubro, diz Camargo, passou a apresentar sinais de estabilização no último trimestre do ano passado e subiu de 85,7% em dezembro para 87,8% em fevereiro.

Quando a relação entre os salários de admissão e demissão cai, afirma Camargo, é sinal de que os empregadores estão ajustando sua força de trabalho, trocando trabalhadores mais caros por mais baratos, de modo a reduzir a folha de pagamentos. Quando o mercado volta a se aquecer, os salários de admissão crescem um pouco, porque há mais competição por mão de obra entre as empresas.

Para Camargo, que também é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) esse é um indício de que o desemprego pode atingir o pico no segundo trimestre deste ano, entre abril e maio.

Ainda assim, advertem os economistas, vai demorar para a taxa de desemprego ceder. “O último indicador a melhorar vai ser a taxa de desocupação”, afirma Romão, da LCA Consultores, já que em momentos de recuperação da atividade econômica, a população que havia deixado de procurar emprego por desalento volta a buscar uma vaga, o que aumenta a População Economicamente Ativa (PEA).

Como a geração de vagas vai ser insuficiente para absorver esse contingente, o desemprego, que foi de 11,5% em 2016, deve subir para 13,6% em 2017 e 14,2% em 2018.

“Os últimos dados de mercado de trabalho, tanto o Caged quando a Pnad Contínua, mostraram que sinais mais positivos, ainda que o desemprego siga aumentando”, comenta Margato, do Santander, que projeta desemprego de 13,5% no segundo trimestre do ano, com queda gradual para 12,5%, até o fim do ano, considerando dados dessazonalizados.

Para a renda, ele estima alta real de 0,6% no ano, o que deve tornar o aumento da confiança dos consumidores mais consistente, contribuindo para retomada da atividade e crescimento de 0,3% do consumo das famílias em 2017, depois de dois anos em que a queda do indicador superou 4%.

Camargo, da Opus Investimentos, avalia que, se a renda e a ocupação se estabilizarem, pode haver espaço para uma melhora mais rápida da economia do que se imagina, especialmente diante da perspectiva de uma queda relevante da taxa básica de juros ao longo de 2017.

Isso depende, essencialmente, diz o economista, de qual será a rapidez com que o atual ciclo de corte de juros vai chegar ao consumidor, um processo que pode se acelerar com o processo de saque de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o que pode permitir renegociação de débitos.

Por enquanto, Camargo traça um cenário de gradual recuperação da atividade, com evolução positiva do consumo mais para a segunda metade do ano.